Carne fraca, carne fria e carne na mesa

Confira o artigo de Mauro Armelin, diretor da Amigos da Terra, sobre a importância da transparência para que haja um controle social na cadeia produtiva da carne.

Amigos da Terra vem, desde 2008, se dedicando a estudar e entender a cadeia de produção da carne e suas implicações sobre as taxas de desmatamento na Amazônia. Dentre as análises vale mencionar as publicações “O Reino do Gado – Uma nova fase na pecuarização da Amazônia” e “Radiografia da Carne no Brasil” que já apresentavam as fragilidades dos sistemas de inspeção dos estabelecimentos industriais e os desafios para a implantação de um sistema de rastreamento eficiente dos animais, desde a cria até o abate.

A mega operação “Carne Fraca”, da Polícia Federal, que desbaratou um esquema de associação entre indústrias de alimentos e fiscais que deveriam garantir que a produção esteja dentro dos padrões sanitários para nosso consumo, só reforçou os alerta de que os sistemas de “comando e controle” tradicionais, baseados somente em fiscais e operações de fiscalização do Estado regulador e seus órgãos controladores não funcionam mais sozinhos, sem a participação da sociedade.

Já a “Carne Fria”, operação realizada pelo Ibama, que identificou a origem dos animais abatidos pelos frigoríficos e encontrou rastros de desmatamentos ilegais e produção em áreas já embargadas pelo Ibama ou por outros órgãos de governo como o Ministério do Trabalho, apresenta um componente diferente da operação da PF. Com foco nos crimes ambientais, essa operação mostrou que a cadeia produtiva da carne precisa de um sistema de rastreamento robusto, que possa identificar a origem dos animais, desde seu nascimento até sua entrega aos frigoríficos para garantir que a carne produzida não contribua para o desmatamento ilegal, que possam ter acontecido até mesmo dentro de Terras Indígenas e Unidades de Conservação.

O ponto em comum entre essas duas operações, central nesse debate e que não está sendo bem explorado, é que casos como esses devem ser muito mais frequentes do que imaginamos e o dilemma é como enfrenta-los sem transformar o Estado em mero agente de fiscalização e que essa atividade não drene toda a capacidade de investimento dos governos. Para Amigos da Terra a resposta é simples, envolver a sociedade para que ela possa fazer valer um sistema de controle social pelo qual seus interesses sejam defendidos.

É claro que para chegarmos nesse estágio de desenvolvimento ainda temos de caminhar muito e o debate necessário para aumentar o controle social, é sobre o acesso aos documentos oficiais de comando e controle. A partir desses documentos será possível fazer os cruzamentos de informações necessárias para gerar novos dados de inteligência sobre as cadeias produtivas, que servirão não somente para melhorar e baratear os sistemas de controle, mas também, e principalmente, para melhorar os sistemas de produção.

A maior parte dos frigoríficos tem interesse em possuir, ou acessar, um sistema de controle que possa mostrar a origem e diferentes sítios de engorda dos animais que estão sendo vendidos a eles, e o mesmo se pode dizer dos grandes varejistas sobre a carne que comercializam. E já existem formas de se fazer isso: por meio da identificação individual dos animais desde seu nascimento ou pelo cruzamento de informações contidas nos documentos de controle sanitário de vacinação (GTA – Guia de Transporte Animal), do CAR (Cadastro Ambiental Rural) e outros bases de dados que já são de domínio público.

A partir do cruzamento dos dados da GTA e CAR seria possível delimitar algumas áreas com baixo, médio e alto risco para os frigoríficos se abastecerem e, com essas informações, eles poderiam adotar precauções adequadas para cada nível de risco. Seria um sistema de rápida construção e implementação e, principalmente, confiável e com baixo custo para começarem a ter controle sobre o ciclo de vida completo dos animais.

Amigos da Terra vem trabalhando no desenvolvimento desse sistema, mas hoje sua implementação só é possível com a colaboração dos pecuaristas, fornecendo o acesso às GTAs ou as acessando através da “Lei da Transparência”, uma forma muito mais burocrática do que o Governo disponibilizar esses dados de forma ativa, já que, por lei, é garantida a sociedade o acesso a essas informações.

Para que a sociedade possa fazer sua parte, os Governos, Federal e Estaduais, precisam também fazer a deles e tornar público os documentos oficiais de controle para que a sociedade possa acompanhar e ajudar nos processos de fiscalização e melhoria das cadeias produtivas no Brasil. Estamos na era do Big-data e as ferramentas para sistemas mais inteligentes de controle, menos burocráticos e mais baratos estão a nossa disposição, só falta agora a transparência.


Por: Mauro J.C Armelin,
Diretor executivo da Amigos da Terra – Amazônia Brasileira

Fonte: Amazônia.org

Programa debate impacto da operação Carne Fraca no mercado nacional e repercute dados da Radiografia da Carne

O ambientalista, jornalista e ex-diretor da Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, Roberto Smeraldi participou nesta quinta-feira (24) do Programa Miriam Leitão, na GloboNews, e comentou a situação do mercado da carne no Brasil após a repercussão da Operação Carne Fraca deflagrada pela Polícia Federal e os problemas de inspeção e rastreamento existentes na cadeia agropecuária.

A apresentadora Miriam Leitão utilizou dados já apresentados pela organização em 2013, com a divulgação do Radiografia da Carne, que apontava os problemas nos diferentes tipos de inspeção agropecuário existente no país e as diferentes regras de fiscalização no território brasileiro. Smeraldi também afirmou que “há um problema de sistema na fiscalização, que é um problema que apontamos em 2013, que diz respeito inclusive aos diferentes tipos de fiscalização: federal, estadual e municipal”.

Assista ao programa

O Presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos, Péricles Salazar, também entrevistado, amenizou os problemas divulgados pela operação da Polícia Federal. Segundo ele as denuncias são “pontuais” e ressaltou que atos ilícitos são encontrados em todos os lugares. “Os fiscais em sua grande maioria atendem todos os requisitos que são definidos nas regras do Ministério da Agricultura, o que aconteceu foi absolutamente pontual”.

Smeraldi por sua vez ressaltou que há um conjunto de problemas que mostram a necessidade de atualizar o sistema de fiscalização e “independente dos casos específicos”, precisam ser enfrentados com uma atualização, já que o atual “foi feito para outro Brasil, um Brasil que não era nem exportador de carne, um país que tinha um padrão sanitário que hoje não se cogita”.

Ao apontar que a maior parte da produção de carne é consumida pelo mercado interno, Miriam Leitão questionou quais garantias o consumidor nacional teria da qualidade do produto. Salazar afirmou que o sistema não é falho, voltou a informar que se trata de problemas pontuais e atacou a divulgação da operação ressaltando o erro de que ácido ascórbico, uma substância fonte de vitamina C, foi dada como cancerígena pela polícia.

“Rastreabilidade é a transparência na cadeia”

Smeraldi defendeu uma reforma no sistema de controle da cadeia produtiva da carne, e uma etapa importante para que isso aconteça seria o controle dos indiretos: “que é o fornecedor do fornecedor. Hoje, o que está funcionando é o controle sobre a compra direta. Se você Miriam, desmatou na sua fazenda eu não compro da sua fazenda, eu controlo isso. Agora se comprou da fazenda do Péricles, um bezerro, que depois você engordou, dai eu não estou sabendo. Está faltando esse elo que é a origem.”, exemplificou.

“Rastreabilidade é a transparência na cadeia”, afirma o ambientalista. Para ele essa poderia ser uma solução sanitária, ambiental e econômica para a cadeia da carne no país.

Operação Carne Fraca

Nota à Imprensa

A Operação Carne Fraca deflagada sexta-feira (17) pela Polícia Federal reforça os estudos e atuação da Amigos da Terra – Amazônia Brasileira que desde 2007 tem realizado aprofundadas pesquisas sobre as cadeias da pecuária bovina, inicialmente na Amazônia e depois no Brasil inteiro.

Em 2013 o relatório a Radiografia da Carne no Brasil mostrou que um terço da carne que chega à mesa do brasileiro não passa por inspeção. Vídeos divulgados na época flagraram a omissão de veterinários que assinam certificados sem sequer estarem presentes ao abate.

Para Mauro Armelin, diretor executivo da Amigos da Terra, o episódio mostra que o problema ainda não foi solucionado e necessita de uma resposta urgente. “Criar um mecanismos de controle da cadeia produtiva da carne que seja transparente e único é o caminho mais seguro para que a sociedade saiba o que está consumido. E isso só será alcançado com o engajamento de empresas, sociedade e governos, que precisam dar acesso aos documentos de controle para que a sociedade e academia possam apoiar o monitoramento”.

Os diferentes padrões sanitários existentes no país só contribuem para as falhas no controle da cadeia produtiva da carne. A organização vem atuando conjuntamente com produtores, governos e representantes de toda a cadeia para que haja um padrão confiável e transparente que garanta a origem e qualidade do produto que chega ao consumidor final.

Contato para imprensa: site@amazonia.org.br

Radiografia da Carne no Brasil

Pesquisa inédita sobre o abate bovino no País mostra que um terço da carne que chega à mesa do brasileiro não passa sequer por inspeção. O trabalho, realizado ao longo de oito meses pela OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) Amigos da Terra – Amazônia Brasileira foi lançado no Congresso Nacional, em audiências públicas marcadas no Senado e na Câmara dos Deputados. more “Radiografia da Carne no Brasil”