O Multilateralismo da COP e o Acordo de Como Usar as Privadas
Terei muitas recordações da COP: a garrafinha de água temática com o Curupira que estão distribuindo, a credencial que sempre guardo com carinho e um email da ONU dizendo para o mundo inteiro não jogar papel higiênico e absorventes nas privadas!
A Conferência da ONU para discutir mudanças climáticas é sempre um momento único, reunir representantes de (quase) todos os países em prol da luta ambiental, é político, é social, mas também uma vivência cultural. Andar pelas ruas escutando diferentes idiomas, descobrir como usar os banheiros e fugir da chuva se apertando em uma cobertura minúscula com europeus e africanos não acontece muitas vezes na vida de uma pessoa.
E isso não é pouca coisa. Estamos reunindo um planeta para um acordo global. E ainda que o objetivo final, mesmo para nós, como organizações observadoras seja apoiar o debate climático global, reforçando e pressionando para que os investimentos para uma transição econômica justa e sustentável surjam, também é o momento de estarmos presencialmente aqui.
Um dos tripés da sustentabilidade são as pessoas. E isso é eventualmente suprimido do debate sobre REDD, com mais ou sem mais, valores de mitigação, tecnologias e faturamento, ou siglas cheias de F (nada contra, inclusive).
No atual cenário político e social, onde a confiança foi desfeita e a polarização parece mover a produção de conteúdo e conhecimentos, isso dificulta os cenários de cooperação. Dificulta o trabalho de comunicação, em prol de pautas propositivas. Sem confiança, não há cooperação.
E claro, como sociedade, sempre há formas de obrigar uma cooperação e regulação. A mais comum é a punição (oi Foucault), mas para falar em número, podemos também relembrar a teoria dos jogos de John Nash (1928-2015), importante matemático norte-americano.
Segundo a sua teoria, é possível reforçar a cooperação pela repetição. Ainda que as pessoas não sejam exatamente cooperativas, quando entram em jogos repetitivos elas passam a tomar decisões cooperativas, isso porque estabelecer relações é uma forma de melhorar o jogo. Amigos e famílias tendem a motivar mais nossa generosidade. O ambiente na Conferência do Clima, está longe de ser uma grande família. Por mais que Belém tenha nos recepcionado de forma tão gentil, há muitas arestas a serem resolvidas, há países importantes que não vieram, tentativas de enfraquecer o debate e desinformar, além do desconhecimento de grande parcela da população sobre o que acontece neste espaço.
Mas quando o Lula diz que esta é a COP da Verdade, podemos acreditar que estando há 30 Conferência do Clima discutindo as mudanças climáticas e soluções pode sim, haver avanços. Esse espaço de vivência e convivência, é um espaço de reestabelecer relações e acordos, e ser presencial, diverso e, sendo no Brasil, também divertido, é o que salva o multilateralismo. Chegaremos a um acordo. O primeiro deles sobre onde jogar o lixo no banheiro.
Por: Aldrey Riechel
Ps.: Em muitos países o lixo do banheiro é descartado na privada. No Brasil nossa estrutura de saneamento não permite isso, sendo necessário o uso da lixeirinha ao lado para não entupir os banheiros!

